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Climas Sonoros

Marina Carvalho | LandArt
Climas Sonoros

O meu encontro com o Vale Èr Yuè Xià (Final de Fevereiro)

Pinheiros serpenteiam as montanhas e vales de JiuXian. O vento abraça o tempo falando nas folhas, bambus, rochas,... Aqui, tudo é tempo e espaço. Aqui, penso a música na escultura. 

O meu trabalho

Trabalho a matéria na sua dimensão espacio-corporal, numa relação de ritmos, texturas, densidades, frequências, cores, explorando o ritmo musical criado por conjugações da progressão da série numérica de Fibonacci.

Exploro a série de Fibonacci como uma escala musical, onde as notas musicais são análogas aos corpos que crio. Corpos situados no tempo e espaço. Um dó ou um sol, ou um conjunto de notas musicais são volumes, têm uma determinada densidade, uma determinada frequência, massa, peso, dimensão, forma, cor, timbre, textura.

Climas Sonoros

O meu percurso em JiuXian

Trabalhar sobre esta dinâmica musical na escultura foi um desafio. A Land Art exige uma verdadeira vivência da matéria, tempo e espaço. Em JiuXian estes elementos apresentaram-se como algo novo para mim – clima, geologia, natureza, cultura, paladares, aromas, hábitos e ritmos que nunca tinha vivenciado antes.

Com uma recepção tão calorosa, o abraço daquela paisagem única, o grande entusiasmo que vibrava em todos nós, a ideia inicial para o meu trabalho surgiu facilmente. Mas logo me apercebi que ainda não me tinha despido de mim. Entregar-me ao presente, conseguir experienciar o tempo sem o relacionar com o já conhecido, entrar no pulso da vida de uma terra distante.

Esta entrega levou o seu tempo, não foi um salto de olhos fechados mas antes um processo de adaptação, que, a pouco e pouco, diminuiu as distâncias. Como disse Zeng Weijun, chefe cozinheiro de JiuXian, “arte é vida, e vida é arte”. Neste sentido, o processo do meu trabalho foi o processo da minha vivência em JiuXian. 

Climas Sonoros

Da frustração nasceram novas ideias até à consolidação do essencial: o bambu como matéria e a natureza que com ele interage. O bambu é extremamente versátil, é leve e resistente, duro e flexível, de rápido crescimento e longa durabilidade. Do macro ao micro, o bambu está em todo o lado. Ele toma forma em objectos domésticos, instrumentos musicais, na construção de edifícios,... O bambu está tão presente aqui como a água ou o ar que respiramos. Tudo se faz com o bambu. 

Climas Sonoros

Alimentei-me das tradições locais e recriei-as. Descrevi corporeamente, em dois momentos, as tradições que vivenciei. Os dois momentos são matericamente e tecnologicamente semelhantes, mas combinados de modos diferentes. No primeiro momento, Feng zhi dí, o bambu dialoga com o vento e com as pessoas que participam, tocando-os. O espaço circular acolhe a rítmica visual dos bambus, as pessoas que dialogam com eles e os seus sons.

O som do vento nos bambus. O tempo que passa e deixa marcas. O sol, as montanhas, ... No segundo momento, Yu zhi dí, o bambu dialoga com a chuva, com a montanha que respira com ele, com a rocha e as diferentes colorações que a povoam, com a brisa e os ventos que passam, com o tempo,... Em ambos, o bambu interage com o clima que molda a natureza e vai dando conta do tempo. Do tempo que faz vibrar a matéria mas que também a desgasta. Do tempo que vive, e do seu fim. 

Climas Sonoros

Título | Feng zhi dí (flauta vento)

Modalidade | Intervenção no espaço

Técnica | Manipulação

Materiais | bambus, corda, vento

Dimensões | 650x350(diâmetro) cm              

Descrição do espaço | Instalação sonora no Vale Èr Yuè Xià

Sinopse | Deslocação espacial e temporal criada pela conjugação de bambus num espaço circular. Como massas de ar em movimento, esta rítmica visual percorre o tempo numa dinâmica ondulatória. O espaço é um corpo musical. 

“Quando entro em Feng zhi dí sinto uma grande harmonia e tranquilidade. Sinto que eu e a natureza somos um só elemento.” Duma Siran, instrumentista chinesa, artista participante na residência

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Climas Sonoros

Título | Yu zhi dí (flauta chuva)

Modalidade | Intervenção no espaço

Técnica | Mobile

Materiais | bambus, corda, vento, chuva

Dimensões | 800x260(diâmetro) cm              

Descrição do espaço | Instalação sonora no Vale Èr Yuè Xià 

Sinopse | Deslocação espacial e temporal criada pela progressão vertical de bambus suspensos na montanha. Em contraste com a massa rochosa, esta rítmica visual vai dialogando com o vento e a chuva. O mobile é um corpo musical.

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“Yu zhi dí é um corpo musical que dá uma nova vida à montanha. Gracioso no movimento mas ao mesmo tempo forte e imponente.”  Escaladores da Monkeyking climbing, assistentes de montagem em Yu zhi dí

 

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Marina Carvalho
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